• Ana Andreiolo

CARTA DE UMA ANALFABETA


“A chama vis­ta por um vidente é uma realidade

fantasmagórica que pede uma declaração da palavra."

Bachelard, A chama de uma vela, pag.28



Convocados para um almoço de domingo onze anos após a sua partida, a família se reuniu numa pequena cidade do interior do Rio de Janeiro sem lembrar o motivo de estarem ali. Era o ano de 1983.

Céticos, católicos, letrados e analfabetos iam se acolhendo pelos móveis da sala, ao redor da mesa e da TV de tubo.

Seu pai a esta altura também não estava mais presente, já havia partido, talvez tenha ido te encontrar, ninguém saberia dizer ao certo.

Adentrava pelo portão da casa de sua tia seu padrasto Modesto. Homem letrado, advogado, legitimado pela sociedade e um dos céticos. Sua mãe, uma mulher rústica, de talentos manuais e comportamento selvagem, sem estudo, assim como sua tia, nascidas de um italiano imigrante com uma brasileira. Ambas relatavam que nunca entenderam uma palavra que seu pai esbravejava. Crescidas numa comunicação rudimentar e gestual, eram filhas das matas e amigas dos pássaros e cavalos.

As mulheres viventes da década de 20 do interior do Brasil não só não tinham acesso aos estudos como a elas não lhes era concedida permissão para tal. Contudo, sua mãe, de espírito selvático e revolto, escondia-se no armário durante as aulas de português que seus irmãos mais velhos recebiam em casa. Ao contrário, sua tia Eva, irmã mais nova de sua mãe, de temperamento calmo e personalidade submissa, acatava as regras sem confronto ou nenhuma pulsão de burlá-las. Sua tia nunca escreveu uma palavra, não sabia manusear um lápis, nem desenhar uma letra.

Dentro da casa já estavam todos, incluindo sua irmã do meio, com suas duas sobrinhas de 3 e 10 anos de idade. E também seu irmão mais novo.

Outras testemunhas também ocuparam os assentos da sala e da mesa de almoço neste domingo.

Como não era seu aniversário de nenhuma sorte, toda a família foi pega de surpresa com sua visita.

Quando sentada na poltrona papeando sobre a novela das 9h, tia Eva, estranhamente pede lápis e papel de forma abrupta e impositiva de maneira a não ser indagada. Tanto que imediatamente, alguém prontamente abriu a gaveta do móvel da TV e lhe serviu, atendendo ao seu pedido. Tia Eva se pôs a produzir gestos soltos e ágeis que formavam palavras largas e legíveis dominando o papel de ofício, embasbacando seus familiares que desconheciam sua habilidade para a escrita.

Ela não parou até que acabasse e assinasse com perfeição em seu nome.

O oráculo foi interpretado da seguinte maneira: era uma carta dirigida a sua mãe Abigail e a toda família com a sua assinatura, ainda que você já não estivesse de corpo presente.

A comoção abarcou a todos. Modesto, o cético advogado, se tornou o guardião oficial de tal documento e tratou de levá-lo a um especialista para avaliar a veracidade da assinatura que, na época, foi comprovada.

Modesto teve suas crenças transformadas e passou a estudar cuidadosamente a doutrina espírita.

Sua irmã Ivy, às pressas, subiu as escadas com a carta na mão, foi ao escritório do padrasto, pegou uma papel timbrado da prefeitura da resma em cima da escrivaninha, e datilografou todo o conteúdo da carta recém escrita. Assim, fez uma cópia da psicografia.

Esta carta, originalmente escrita à mão por uma mulher analfabeta, se tornou uma prova viva e ficou em posse de seu guardião Modesto que a deixou de herança a seu irmão caçula Ric.

Em 13 de fevereiro de 2018 sua mãe Abigail também se despede da vida na Terra.

Em outubro de 2018, sua sobrinha Ana, já adulta, pediu para ter acesso a tal carta. Consegue ver e ler a cópia datilografada por Ivy e inicia um trabalho em cima desta história que a cercava desde os seus primeiros anos de vida.

Inesperadamente a carta original, escrita a próprio punho pela oráculo analfabeta tia Eva, desaparece da pasta de couro que a reteve por mais de trinta anos.

Ana inicia a busca pela carta dentre caixas de papelão, desordens, acúmulos, depósitos, traças, poeira, estantes antigas, sótãos... Foi usada uma forquilha radiestésica para contribuir na procura. Após dias de busca frustrada, Ana contenta-se em cessar.

Alguns meses prosseguem, o trabalho "Carta de uma analfabeta" passa a existir sem a presença física do objeto original.

Quando, de repente, no dia 6 de fevereiro, Ric apressadamente liga para Ana e revela: - A carta apareceu!

No dia 13 de fevereiro de 2019, mesmo dia em que sua sobrinha assinava a papelada de divórcio, recebia também, em mãos, as três folhas escritas à mão da carta psicografada. Neste mesmo dia é chegada a notícia de que "Carta de uma analfabeta" teria sido aprovado em um edital.

Dia 6 de março de 2020 inaugurou a exposição, pouco antes de encerrarmos as atividades dos espaços públicos contaminados pelo covid-19.

A exposição, no meio de uma alarmante pandemia, permaneceu montada por meses, fantasma, sem público e sem visitações, até a desmontagem em agosto de 2020, no aniversário de Ana.