CRÔNICA DE UM ECLIPSE



Amanhã não tem filtro solar, menos uma gosma cosmética matinal pra eu me preocupar. Seres humanos não emanam raios UV, mas emanam tantas outras coisas...

Amanhã também não tem óculos escuros.

Não vai ter chuva, muito menos arco-íris.

O dia acaba mais cedo, mas o expediente será o mesmo.

O computador só desliga depois das 19h haja o que houver.

Amanhã também não vai ter pôr do Sol.

Mas que espécie de amanhã é amanhã?

E eu que achava que não previa o futuro, todo dia acordo com a certeza de um sol que levanta e que o mesmo se põe, mas amanhã eu não tenho mais esta certeza.

Mas talvez tenha outra, de que ele vem, mas não vai.

Eu acho que não tenho mais medo do escuro, me levanto quase toda noite nele pra ir ao banheiro e fica tudo bem.

Talvez eu tenha medo dos barulhos que o escuro faz. O trincar do assoalho se retraindo com a temperatura baixa da madrugada. As correntes do elevador. As chaves de um vizinho. Os passos do andar de cima. O apartamento de cima parece só ter pés à noite.

Se não fosse a ditadura urbana amanhã teríamos vaga-lumes de dia, mas ainda teremos a luz fria da lavanderia do vizinho acesa. Me incomoda, mas eu nunca quis black out, já amanhã não há escolha.

Amanhã não sei se dou bom dia ou só boa noite.

Ana Andreiolo

(Bom eclipse pra tod

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Bem-vindxs. - Por Ana Andreiolo
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