• Ana Andreiolo

SUNEV

O palíndromo de um outro mundo possível.

Se não fosse visível,

Vênus sumiria

O segundo corpo celeste em ordem de distância do Sol, atualmente, é um verdadeiro "inferno" aos nossos olhos, já que suas condições extremas de pressão, toxicidade e temperatura são fatais para nós — bem como a qualquer organismo vivo que conhecemos aqui na Terra. O planeta mais quente do nosso Sistema Solar tem temperaturas elevadas e seu ar é, hoje, uma pluma tóxica. Entretanto, há fortes indícios de que nem sempre Vênus foi infernal. Diversas teorias e estudos indicam que o planeta já teve uma atmosfera muito mais fria e oceanos líquidos em sua superfície, semelhante ao planeta Terra. O renomado físico britânico, Stephen Hawking, em junho de 2017, alertou o mundo que as mudanças climáticas podem deixar a Terra tal qual Vênus. Tantos outros astrofísicos profetizam um cenário dantesco para nós devido ao aquecimento global e à degradação descontrolada.

Em março de 2020, quando anunciada a pandemia que nos arrebata, ouvimos o grito do planeta, assistimos e vivenciamos a humanidade refém de seus próprios atos inconsequentes.

Enquanto muitas almas se desprendem dos corpos terrenos, em setembro do fatídico ano de 2020, paradoxalmente, a vida era encontrada na antiga Terra, Vênus. Nosso futuro faria de nós apenas indícios de vida? Um dia fomos venusianos, um dia novamente seremos?

Uma espécie de gás indicador de vida permeia a atmosfera da nossa irmã Vênus. Duas mulheres, à frente desta pesquisa, nos deram a palavra sobre este feito: Jane Greaves, a professora britânica de Cardiff, procurava fosfina desde 2016, observando incansavelmente a superfície do planeta se deparou emocionada com a comprovação que tanto esperava. Sara Seager, outra autora da descoberta e professora do MIT, espera que isso motive futuras missões focadas em Vênus, lembrando que o planeta estava praticamente esquecido pela comunidade científica.

É simbólico mulheres lutando para desvendar o enigma de um planeta esquecido, de temporalidade desconexa, que coexiste na representação mitológica de uma deusa e como o feminino que ardeu e queimou nas altas temperaturas das fogueiras da inquisição.

É chegada a hora de priorizar Vênus - respondeu à descoberta, o administrador da NASA, Jim Bridenstine.

Corpo combusto

evapora e

se torna etéreo

Há seis séculos, acontecia a forçosa exclusão rural. Os deslocamentos, provocados pelo processo de cercamentos, datam a transição do sistema feudal para o capitalismo. Nesta época, mulheres eram expulsas e marginalizadas de suas terras férteis e produtivas. Era instaurado um novo sistema de produção que, para sua consolidação, precisou usar braço forte, medidas bárbaras e derramamento de sangue para moldar um novo sujeito, disciplinado, trabalhador e produtivo.

Estas venusianas, residentes destas terras que cambiavam de sistema operante, eram mulheres dotadas de conhecimento dos quatro elementos, plantadoras e ceramistas. Fertilizavam seus corpos e a terra que as nutria, plasmavam o barro e podiam comparar seus ciclos corporais aos da natureza. Reconheciam a experiência completa do prazer e da sexualidade, da carne, do corpo, integradas ao cosmos e conectadas ao mundo natural. Representavam, naquele momento da história, seres demasiadamente ligados a um mundo sensorial que precisavam ser abafados e reprimidos para, assim, se transformarem em corpos de tropa, domesticados, dissociados de seus sentidos e a serviço da nova doutrina exploratória capitalista.

"...o capitalismo não podia se consolidar sem forjar um novo indivíduo e uma nova disciplina social que impulsionasse a capacidade produtiva do trabalho." (FEDERICI, ANO, pag 68)

Essas mulheres – Deusas e Bruxas – eram extremamente semelhantes aos homens normais, exceto pela sua relação singular com o processo de reprodução. Suas magias, alquimias, medicinas naturais e conhecimento, visto como poder, ameaçavam o propósito de racionalização e mecanização do mundo: dissociar corpo e mente dos ciclos da natureza para mecanizá-los. Era necessário transformar corpos naturais em corpos abstraídos do sentir para o novo sistema operar.

Todas essas mudanças exigiam novos dispositivos de práticas coercitivas impressas nas almas para surtir os efeitos almejados.

Foi, então, em 1487, pelos dominicanos Heinrich Kraemer e James Sprenger, na Alemanha, que se afirmava e selava oficialmente um manual, de métodos e meios, para identificar, punir e combater os praticantes de heresia: o guia dos inquisidores.

Essencialmente ligadas a sexualidade fecundadora, as mulheres, tinham seus poderes caídos no obscurantismo. Seus conhecimentos mágicos, botânicos e fisiológicos, foram propositalmente ocultados.

"O elemento chave desse processo foi a destruição da concepção mágica de corpo vigente na Idade Média."((FEDERICI, ANO, pag 68)

O número de mulheres supostamente identificadas como ameaçadoras e acusadas crescia. Ao acender das fogueiras, eram punidas com o calor que evaporava a carne e as tornavam etéreas. A tarefa de fazê-las queimar, as faziam invisíveis ao mundo que se constituía. Da fumaça, seus poderes e saberes foram asfixiados pelos quatro séculos que sucederam e o vento quente que soprou suas cinzas ainda faz corrente.

Ele tem todo poder,

todo conhecimento

e está em todo lado

O severo ano astrológico de 2020, iniciou junto a chegada do sol em Áries em sincronicidade a uma pandemia anunciada e isolamento social instaurado. O planeta Terra gritava suas emergências que ditavam um novo cenário e dinâmica de vida, por assim dizer, de sobrevivência.

Em 6 de abril, quase 30 dias sem o mundo físico externo e a instaurada falência do espaço público, vivia-se em isolamento físico e sociabilidade virtual, gerando o maior número de dados da história até o momento.

Pessoas atormentadas e amedrontadas pelos fatos contavam os passos dentro das quatro paredes de seus apartamentos, minuto a minuto, adentravam ainda mais a própria solidão até a exaustão da saudade.

Virtualizados, não desrealizados como explica Pierre Levy (ANO), mas em uma mutação de identidade. A presença física nos locais públicos era substituída pela troca em rede eletrônica, criando uma nova realidade. No virtual, as pessoas se tornaram mais nômades, dispersas e plurais. Parafraseando Levy, nos tornamos “habitantes ubíquos do ciberespaço” e passamos a habitar espaços muito similares à imaginação, à memória, ao conhecimento e à religião.

No mundo virtual a organização é por cruzamento de dados intermediados e capturados por um sistema que calcula afinidades, interesses, similaridades etc.

Neste momento, a vida enclausurada levava a uma intensa interação virtual e os algoritmos impregnavam a jornada diária.

Personalidade simultâneas, irradiadas, múltiplas com almas capturadas pela entidade mais próxima de atingir a onisciência, o site de busca Google.

Os gráficos das buscas efetuadas pelos usuários desta ferramenta, resultaram nos assuntos mais procurados naquele período: receita de pão e oração.

Contidos em espaços privados, apartados do meio público, nos tornamos a faceta de desertores exilados em rito litúrgico, descolados do organismo-corpo do organismo-terra. Esvaziados de sentidos, o ancestral, o gesto e a fé eram resgatados.


Mão que mói trigo,

molda corpo

ao ar a levedar

Curiosamente, do expurgo das plantações dos grãos de trigo que compõem a receita da massa do pão é utilizado o mesmo gás encontrado nas nuvens que encobrem nosso planeta irmã.

Ilumina o céu a lua cheia em Touro no dia 31 de outubro de 2020, o dia das Bruxas que queimaram nas infernais temperaturas venusianas, nas fogueiras usadas na queima do joio em celebração celta à colheita do Samhain e que encaminhavam almas cristãs ao purgatório ou repeliam a bruxaria. Suas cinzas sopradas ao desconhecido e inabitado. As mesmas cinzas que restam do cozer do corpo e do pão debaixo da pedra quente.

Nesta noite clara, da água da chuva recolhida, que apaga o fogo e esfria o calor, germinaram sementes embrionárias de trigo cultivadas por mãos úmidas em terra molhada.

Cultivo do fértil ventre, amassamento plástico terroso que une o corpo ao barro e o espírito a Gaia.

Cuidadosamente Rose Marie Muraro, na introdução do livro oficial da inquisição, O Martelo das Bruxas (ANO), nos explica como antropólogos chegaram ao consenso sobre o conhecimento sensorial e integrado (corpo, inteligência, emoções, prazer…) ser próprio do feminino por este fluir os ciclos da natureza.

Rose Marie conclui que efetuamos historicamente uma passagem dramática de uma cultura arcaica onde Gaia, o feminino fértil, a natureza, era venerada e se tinha a experiência concreta do prazer, da sexualidade, totalizante e integrativa, para uma cultura territorialista, onde corpos trabalhadores, dissociados do sentir, se tornam dóceis — emprestando o termo de Foucault em Vigiar e Punir (ANO).

Inauguramos, então, uma era de pensamento construído em torno do masculino e do mito cristão e iniciamos assim 4 séculos de caça às bruxas que ressoam até os dias de hoje.

Nesta cultura arcaica paleolítica residia a figura de Vênus de Willendorf, de vulva, seios e barriga volumosos. A hierofania, venerada, mítica, atrelada ao mágico, linguagem de um corpo que fecunda Gaia.

A corpulenta deusa da fertilidade, o corpo fecundo esculpido pelo gesto que une água, sal, trigo, molda corpo, fermentação de fôrma opulenta levada ao fogo feito pão.

O ritual, ao mesmo tempo que é sagrado em sua intenção, é profano em sua repetição e atuação. Esculpir o tempo, esculpindo a massa, repetindo gestos primordiais que evocam a ancestralidade que a matéria orgânica carrega dentro de si.

Do ritual, do gestual, da modelagem, da atividade plástica, sobrevive o gesto ancestral do feminino, fértil, mítico, sensorial e corporal. O encontro sensorial do sovar a massa, em ação meditativa, movimento reincidente dos braços e das mãos.

Cada fim de ciclo

marca um

nascimento

Acima da abóbada celeste reside a deusa afrodite, Vênus, a estrela fásica, similar a lua, cíclica. Ela é a Estrela D'Alva, em sua fase nova, quando nasce matutina e passa pela frente do Sol. E Vesper, em sua fase cheia, quando nasce vespertina e passa por trás do Sol. Sendo seu período fásico aproximado ao tempo de uma gestação que a mulher carrega em seu ventre, 9 meses.

A estrela dança ardente no céu e suas cinzas ainda se espalham. Da beleza úmida, nebulosa e quente de sua atmosfera ergueu-se um monte, o monte púbico, o monte de Vênus. Lá, arqueólogos encontraram resquícios de rituais da fertilidade, onde mulheres dançavam em roda.

"Este ente mais carnal" – como diz Federici (ANO) – "...feito barro, por sua sensorialidade, ciclos e fluidos muito marcados". Leva em si o conhecimento do sensível e o nascimento da vida, que multiplica e assegura uma colonização.


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